A sexualidade feminina como ameaça

12:46



   Todas nós sabemos que nossos corpos são grandes obras da natureza e que é por si só uma geradora. Os nossos corpos são misteriosos, são extremos e sobre eles carregamos o peso da vida, em gerar e em manifestá-la. O ser humano desde os primórdios tenta desvendar o que somos diante de toda essa imensidão, posso ser poética e detalhar que da Terra somos filhos e filhas e para Ela nós voltaremos, mas a poesia talvez não se encarregará de transmitir tudo o que penso a respeito da sexualidade feminina como tabu ou ameaça. É fato que nossos corpos eram tão desconhecidos que por isso tornaram-se tabu, quem manifestava esse ciclo? Como ele ocorria? Hoje nós temos muitas respostas, respostas essas que desmistificaram nossos corpos como fruto do pecado. Trazendo um pouco sobre as questões bíblicas entendemos a manifestação do sagrado feminino como algo temeroso. 

  Eva e a desobediência, Eva como a segunda criação, Eva como a pecadora e impura, Eva como a mulher de Adão e por ai seguem diversas teorias sobre o pecado da luxúria e a descoberta do sexo. É dito que a partir do prazer da mulher desde o paraíso de Adão e Eva, ambos pecaram em descobrir o sexo, o desejo sexual impuro, enquanto a ideia da manifestação sexual era somente a procriação. Isso é muito claro, entende-se que o sexo é uma forma de manter uma espécie, assim como no ciclo animal, separados disso, somos considerados seres mais evoluídos que precisam ter ideia da dimensão dessa responsabilidade, em existir.


    O não-prazer controlou a mulher durante muito tempo, desde casamentos arranjados onde a ideia do sexo era sagrada, onde a mulher ainda era tida como segunda opção e por si só a geradora ou procriadora e somente isso. A mulher adúltera, a mulher orgasmática e sexual, a bruxa, eram mulheres condenadas. Diante do paganismo, da ideia de igualar-se ao animal que somos, até tempos atrás era totalmente fora de senso, não nos permitiam ter contato com nosso sexo além de uma possível gravidez, não nos permitiam sentir prazer e ter orgasmos, não nos permitiam nos tocar, nem mesmo a auto-descoberta, como uma forma de controle daquilo que não se podia e não se pode controlar, mas que por muito tempo tentaram domar. 

  Hoje, com o feminismo, temos a dimensão de todo esse controle vezes consciente, vezes inconsciente sobre nossos sagrados corpos, em contrapartida, o homem a se conhecer perfeitamente (ou não tão bem quanto pensam), nos ensina o que devemos ser ou não, fazer ou não, entender ou não e nos encontramos em um despertar feminino, em um momento em que nossos corpos dizem por si mesmos o que querem. 

   O desconhecido é temido, é evitado, é julgado. Tudo o que ameaça, é ruim e dessa forma é destruído. Sem a mulher não há vida, e dessa forma controlá-la é o ideal para tirar o que precisam dela sem descartá-la, mantendo-a engaiolada. Como alguém que sangra todo mês, possui outro ser dentro do ventre pode ser dominado? Como essa força natural pode ser dominada. 

   Ao pensar em Lilith, a forma mais íntegra e oposta de Eva, vejo que a sua manifestação é o nosso ser humano, o nosso descontrole, o nosso desejo e vontade sem dominadores, sem correntes, enquanto Eva é nossa face pura, curiosa, controlada e dominada, acorrentada, e penso que ambas se completam intimamente como seio e vagina, a amamentação sagrada da cria, o feminino em seu natural e pureza e em contrapartida o sagrado útero gerador, a sexualidade, e perda de estribeiras, a força feminina e a manifestação do desejo concreto em si, sem pudor, sem lei! Há uma melhor representação da mulher além dessas duas faces inversas?

    Por vezes é engraçado pensar que nos tornamos ameaças, quando nos consideram um sexo frágil. Aprendi a ver a real força da fragilidade, o que é frágil pode ser facilmente controlado e se nos chamam e nos ensinam que é dessa forma, é dessa forma que vamos nos ver, quando há um despertar, entendemos a realidade dessa fragilidade, porque nos chamar de frágeis simplesmente porque aparentamos essa fragilidade, quando somos nós que possuímos a maior das forças, o parto? Quando falo sobre ser mulher imagino uma leoa, aquela que vai à caça, aquela que protege seus filhotes e aquela que é livre de fato, embora tendo que seguir um macho, é ela quem faz tudo, é ela que faz tudo acontecer, ela quem dá um herdeiro, ela quem o alimenta, ela que "educa" as gerações futuras... Que fragilidade há no feminino? Quando penso sobre a existência do machismo não posso pensar em culpar a mãe do homem-macho porque acredita que ele deve ser macho, eu culpo um homem que disse a essa mulher que ela é frágil.

   É o homem que diz a mulher que ela deve criar bem seus filhos, é o homem que diz a mulher que ela é frágil demais para assumir um papel maior, como se o seu papel como geradora não fosse o suficiente, é ele quem faz ela se limitar, é ele que a controla impondo imagens irreais, é ele quem mostra os caminhos à ela como um leão alpha guia o bando.

  Nós não temos a mesma força física que um homem por sermos inferior ao homem, a nossa força está em nossos úteros geradores e não só, não nos limitamos em um papel de mãe, mas em um papel de mulher, geradora, mãe, educadora e guerreira, porque o alimento não vem do céu. Se há, de fato, uma ameaça sobre a nossa sexualidade, sobre a descoberta dela e sobre o nosso prazer, sobre nosso Eu orgasmático, essa ameaça é o homem-macho e o que vem dele, o machismo. Se nós, nossos úteros, nossas vaginas, nossos seios, nossos rostos, nossos braços e pernas, nosso cérebro e tudo o que parte destes são ameaças, por qual motivo então seríamos frágeis?

   

Postagens sugeridas

0 Comentários

POSTAGENS POPULARES

FACEBOOK

Subscribe